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Porque a felicidade está sobrevalorizada

Sempre que entro numa livraria e visito a secção de autoajuda, encontro ali uma infinidade de livros que prometem uma fórmula para a felicidade. Se existem tantos livros com a palavra “felicidade” no título a serem publicados constantemente, é porque as editoras sabem que existe um público que os compra. 

Quando leio esses títulos, assim como aquelas publicações nas redes sociais que apelam à necessidade de procurarmos a felicidade, noto que existe o pressuposto de que somos infelizes. 

Para além desse pressuposto, existe ainda a ideia de que temos de fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance com o objetivo de sentirmos uma determinada emoção, e que esse deve ser o nosso propósito de vida. 

A busca pela felicidade é um luxo das sociedades modernas. 

Este é o reflexo de uma sociedade onde as pessoas já não precisam de se preocupar com as suas necessidades básicas. Quando o principal objetivo é a busca da felicidade, significa que a sobrevivência está assegurada e que já não é uma preocupação. 

Ao contrário de quando se vive num sítio onde existe escassez e pobreza, onde o nosso foco está em descobrir de onde virá a próxima refeição, e em como nos protegermos se formos atacados.  

Nessas circunstâncias, vive-se num estado de alerta constante em que a nossa subsistência é o nosso único intento, não havendo tempo para “buscar a felicidade”.  

Este não é único motivo pelo qual acredito que a felicidade está sobrevalorizada. As pessoas cometem o equívoco de confundir felicidade com outra coisa muito mais importante, procurando-a nos sítios errados. 

Como por exemplo nas gratificações imediatas, as quais até podem trazer contentamento a curto prazo. Ainda que essa felicidade seja uma ilusão que se desvanece rapidamente. 

Se a felicidade não é o objetivo então qual é? 

Se ocuparmos uma parte do nosso tempo em busca de um objetivo maior, tal como escrever um livro, aprender uma nova língua, ou aprender a tocar um instrumento, podemos sentir aquilo que, na minha opinião, é muito mais importante do que felicidade: 

Realização. 

A realização não é apenas sentida quando atinge a sua meta. É também experienciada quando sabe que está no caminho certo e que trabalha todos os dias para chegar onde quer. 

Viver uma vida com realização é viver uma vida com significado. Um significado que é escolhido por nós próprios. Até porque uma das coisas que torna as nossas vidas tão interessantes, é a variedade de emoções que temos a oportunidade de sentir através das nossas vivências. 

Talvez seja por isso que precisamos de sentir infelicidade de vez em quando. Desta forma, aprendemos a dar valor às fases da vida em que tudo está bem. 

Procurar a felicidade torna as pessoas infelizes. 

Num estudo publicado no Science Daily, foi possível constatar que procurar a felicidade torna-nos infelizes. Tal acontece devido à sensação de redução do tempo disponível. 

Procurar a felicidade já é em si mesmo brutalmente abstrato. É procurar algo que não sabemos o que é. Apenas sabemos que estamos à sua procura.  

É como se tivéssemos de encontrar uma agulha num palheiro, escondido no deserto, com os olhos vendados. Ainda que este exemplo seja extremo, pelo menos saberíamos aquilo de que estamos à procura e até poderíamos ter um local de partida. 

Quando alguém está em busca de felicidade, não consegue sequer saber em que sitio começar a procurar. 

O mundo não está tão infeliz como pensamos. 

Esta é, ironicamente, uma boa notícia! Está comprovado que temos a tendência de pensarmos que as outras pessoas são mais infelizes do que aquilo que são na realidade.

Foi realizado um inquérito onde se perguntou a várias pessoas qual a resposta que outras deram sobre o seu nível de felicidade, e a norma foi a de subestimarem o índice de felicidade dos outros. 

Nesse estudo referido na Our World in Data, é possível constatar que temos uma noção pessimista sobre a felicidade das outras pessoas. O mundo não está assim tão infeliz como achamos. 

A mensagem que os media nos transmitem. 

Não faltam mensagens na televisão e nas redes sociais a dizerem-nos que o que importa, é que sejamos felizes. Que a felicidade é o derradeiro objetivo, o motivo pelo qual viemos ao mundo.  

Tal como nos livros sobre felicidade, essas mensagens fazem-nos acreditar que temos algo em falta. Temos de procurar a felicidade porque não a temos, e é tudo aquilo que devemos fazer. Enquanto não a acharmos, devemos continuar numa luta constante. 

Penso que as redes sociais contribuem mais para a nossa infelicidade do que o oposto. Ninguém publica fotos de quando acorda de manhã de pijama e com cara de zangado. Também nunca vemos ninguém a partilhar os seus fracassos e a falar dos seus problemas. 

Tal como a má gestão financeira que a maioria das pessoas faz, os problemas de relacionamento que os casais costumam ter, ou ainda, as más escolhas que todos fazemos ao longo das nossas vidas.

As dificuldades que nos tornam humanos, e que até serviriam para criar uma verdadeira conexão com outras pessoas, são totalmente omitidas. Nas redes sociais todos somos perfeitos. 

Estar em paz é melhor do que estar feliz. 

Quando estamos em paz connosco, a nossa mente está calma. Não pensamos em como estamos felizes ou infelizes, simplesmente vivemos o momento presente. A sensação de estar em paz é muito difícil de descrever porque quando a sentimos, não estamos a pensar naquilo que estamos a sentir. 

Para que tal aconteça, não precisamos de levar uma vida perfeita. Os nossos problemas continuam a existir, o caos nas nossas vidas continua a desenrolar-se em pano de fundo, e teremos sempre adversidade com mais ou menos frequência e intensidade. 

Contudo, seremos sempre os senhores dos nossos pensamentos. Aquilo que acontece dentro das nossas cabeças dita o nosso bem-estar. E embora não controlemos as nossas emoções, podemos controlar os nossos pensamentos.  

Se sabe qual o seu verdadeiro propósito de vida e sabe que está no caminho certo, não há como não se sentir em paz. Se precisa de ajuda para criar um propósito de vida leia o artigo:

Como criar um propósito de vida – O guia completo

Porque não nos devemos impedir de experienciar a vida.  

O objetivo deve ser experienciar a vida, com os seus altos e baixos, navegando pelo mundo à nossa maneira. Quando procuramos incessantemente determinadas emoções, impedimo-nos de experimentar outras. 

Viver sem bloqueios é o que nos permite aprender mais acerca do mundo. Permite-nos conhecer aquilo que mexe connosco verdadeiramente. Até fazer essas descobertas, pode ser necessário passar por diversos fracassos, frustrações e problemas. 

Quando passamos pelas fases negativas da vida, queremos que acabem o mais rápido possível. Todavia, não podemos negar que essas fases nos dão a aprendizagem necessária para desfrutarmos ao máximo da paz e da realização que alcançamos quando finalmente, concretizamos algumas das nossas metas. 

Se analisarmos a questão mais a fundo, descobrimos que a felicidade não é assim tão difícil de alcançar quanto isso. Somos nós que colocamos requisitos demasiado exigentes para a conseguirmos.

10 comentários em “Porque a felicidade está sobrevalorizada”

  1. também tenho visto com frequência títulos relacionados a felicidade, e concordo com seu ponto de vista
    a felicidade não possui uma fórmula exata, cada um faz a felicidade ao seu modo. passamos tempo demais procurando sermos felizes e termos uma vida perfeita, que esquecemos de aproveitar o hoje

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  2. Oi
    Eu sinceramente nunca li livros de autoajuda, é acredito que não existe uma fórmula de felicidade. Pois a felicidade está em pequenos momentos é lembranças de pessoas que amamos…

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  3. Realmente, as pessoas colocam um peso sobre a felicidade como se fosse inalcançável ou que tivéssemos que fazer um esforço enorme para encontrá-la e ela está na nossa frente, em coisas simples.
    Eu adorei o texto.

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  4. As pessoas precisam entender que não existe felicidade plena, né? Eu acho importante a gente correr atrás do que nos faz feliz, claro, mas acima de tudo entendendo que a vida NÃO TEM COMO ser 100% assim e principalmente que nem todo mundo tem como entrar nessa onda da realização pessoal baseada estritamente pelo amor. Não é uma realidade de muitos, pelo contrário. Por isso tenho tantas ressalvas com conteúdo de auto ajuda, só consigo consumir quando abandonam esses discursos meritocráticos de que a felicidade plena é a coisa mais importante da vida e que só depende de você.

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  5. Eu queria pode sempre acreditar que há, lá no fundo de algum lugar, uma coisa inimaginável me esperando, e é por isso que eu sempre devo procurar elevar e elevar meus limites. Mas o que eu tenho sentido, de forma mais concreta, é a frustação de não saber o que há lá no fundo, até mais do que o caminho que é percorrido. Eu concordo mais com essa ideia que pequenas realizações, que nos fazem sentir as emoções mais a flor da pele e trazem extase de alegria, mesmo que momentânea, pois isso é mais “palpável” do que algo que eu não sei como alcançar. Texto muito bom, parabéns!

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  6. Acho que a felicidade é algo de momento, a nossa vida é cheia de emoções isso que é viver. Claro a realização ajuda demais e a paz é a melhor coisa que podemos sentir, e o mais saudável. Seu post me fez pensar bastante, adorei!

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  7. Olá!
    Já ouvi vários psicológos falando, que nunca ninguém será 100% feliz.
    Você disse uma coisa que concordo 100% e é o que mais busco para minha vida, Paz!
    Estar em paz consigo mesmo não tem preço, eu me sinto realizada quando consigo Paz.
    Muito boa a reflexão.
    Abraços

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  8. A meu ver a felicidade plena não existe, e a possível esgota-se na busca daquela; são as pequenas vitórias. Todavia, a busca da felicidade dá sentido à vida, e por isso se recomenda, pena é que muitos se atropelem na ânsia de encontrar a felicidade plena. É que, entretanto, o tempo da busca esgota-se e o ganancioso nunca foi totalmente feliz; consumiu-se numa luta inglória e ainda causou sofrimento ao seu semelhante.

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José Lança

José Lança

José Lança é o criador do blog Desbloqueie-se, onde milhares de pessoas espalhadas pelos quatros canto do mundo já foram procurar inspiração para os seus desafios. Dedica o seu tempo à escrita de não ficção, explorando temas que abrangem desde o desenvolvimento pessoal ao condicionamento social, passando por tudo aquilo que tem impacto na produtividade pessoal de cada indivíduo. Acredita que o seu propósito de vida é atingir a maestria num único campo, ao longo de toda a sua vida.
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